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Uma semana depois, o Brasil começou a enxergar o rosto de quem cumpre a Justiça
Em cartaz por mais uma semana no Congresso Nacional, a exposição “A Justiça pela lente do Oficial de Justiça” transforma estatísticas em histórias — e devolve visibilidade a uma categoria que, há décadas, sustenta a Justiça brasileira na invisibilidade.
Há uma semana, quem caminha pelos corredores do Congresso Nacional encontra algo incomum entre as pautas e os discursos: rostos. Rostos de homens e mulheres que, todos os dias, batem à porta do cidadão brasileiro para que uma decisão judicial deixe de ser papel e se torne realidade. São os Oficiais de Justiça — e, pela primeira vez, eles estão sendo vistos.
A exposição “A Justiça pela lente do Oficial de Justiça”, aberta em 19 de maio pelo SINDOJAF–UniOficiais/BR e pelo Instituto Nacional dos Oficiais de Justiça (UnoJus), com o apoio dos sindicatos e associações que integram a rede, segue em cartaz por mais uma semana. E o que parecia, no primeiro dia, uma mostra de imagens, revelou-se outra coisa: um espelho. Um convite para que o país pare, olhe e reconheça quem sempre esteve ali, ainda que ninguém estivesse olhando.
Tornar visível o que sempre esteve invisível
O Oficial de Justiça é o agente público que dá corpo às decisões da Justiça. Citações, intimações, penhoras, reintegrações de posse, mandados criminais — nada disso se cumpre sozinho. Alguém precisa atravessar a cidade, encontrar o endereço, encarar o desconhecido e cumprir, na prática, aquilo que um juiz determinou. O ato se efetiva pela diligência em si — pela realização da ordem judicial — e não pela entrega da via do mandado, que é apenas acessória e pode até não acontecer, já que o cidadão tem o direito de recusar o recebimento. Esse alguém costuma trabalhar sozinho, sem escolta e sem aviso prévio.
É justamente essa figura que a exposição traz para o centro do Congresso Nacional. Não como uma reivindicação de classe, mas como uma pergunta serena dirigida a toda a sociedade: quem é a pessoa por trás de cada decisão cumprida? Ao longo desta semana, parlamentares, assessores e visitantes têm parado diante dos painéis e se deparado com uma realidade que raramente chega às manchetes — a de uma categoria essencial e, ao mesmo tempo, pouco enxergada.
Números que a exposição traduz em rostos
No mesmo dia em que a mostra foi aberta, o SINDOJAF e o UnoJus lançaram o Relatório Nacional dos Oficiais de Justiça no Brasil – 2026, o primeiro diagnóstico nacional consolidado sobre a carreira. O documento reuniu informações dos 91 tribunais brasileiros e identificou 34.051 cargos de Oficial de Justiça em órgãos com quadro próprio. Desse total, 26.229 estão providos e 7.822 permanecem vagos — um índice nacional de preenchimento de 77,03%.
Em outras palavras: quase um em cada quatro cargos criados para dar cumprimento material às ordens judiciais ainda não tem ninguém para ocupá-lo. O estudo mostra, com serenidade, que o desafio não se distribui de forma homogênea — a Justiça Estadual concentra 95,35% das vagas nacionais, e o Tribunal de Justiça de São Paulo responde, sozinho, por mais de 5.400 cargos vagos. São pontos que pedem planejamento e recomposição gradual, não alarme.
Atrás de cada percentual, porém, há uma rotina humana. Cada cargo vago significa mais mandados acumulados nas mãos de quem ficou — e cada estatística da exposição ganha, ali no Congresso, o rosto de quem vive esse cotidiano.
O risco que caminha junto
A exposição também não esconde a parte mais dura dessa história. O Dossiê de Crimes contra Oficiais de Justiça, organizado pela Assojaf-GO, reuniu 213 episódios de violência registrados entre 2000 e 2024, com ocorrências em todas as regiões do país. E o desgaste não é apenas físico: um estudo conduzido com Oficiais de Justiça Federais no Rio Grande do Sul identificou prevalência de 40,7% de Transtornos Mentais Comuns entre os participantes.
São números que pesam — e que a mostra apresenta sem dramatizar, porque a realidade já fala por si. O Relatório Nacional defende uma resposta institucional estruturada, e não episódica: planejamento de pessoal, protocolos de segurança, acompanhamento psicossocial e modernização tecnológica, na linha do que já prevê a Resolução CNJ nº 600/2024. Cuidar de quem cumpre a Justiça é, no fim, cuidar da própria Justiça.
Um diálogo de portas abertas
Desde a abertura, a exposição tem sido marcada pelo tom que define a atuação do SINDOJAF: o do diálogo. Parlamentares de diferentes frentes prestigiaram a mostra e somaram-se ao esforço de dar visibilidade à causa — entre eles o deputado André Figueiredo, homenageado pelo Instituto UnoJus pelo apoio à pauta, o deputado Renato Roseno, as deputadas Fernanda Pessoa, Antônia Lúcia, Laura Carneiro, Professora Luciene Cavalcante e Luizianne Lins, além do ex-deputado Charles Evangelista, primeiro Oficial de Justiça a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados.
O SINDOJAF acompanha, de forma técnica e apartidária, pautas como a PEC nº 23/2023, que busca o reconhecimento constitucional da carreira, e a recente legislação voltada à proteção dos agentes do sistema de Justiça. A exposição não pede pressa nem confronto: pede atenção. E a atenção, nesta semana, tem sido conquistada um olhar de cada vez.
A categoria que sustenta a Justiça
Mais do que uma mostra no Congresso, a exposição “A Justiça pela lente do Oficial de Justiça” é um marco no posicionamento da categoria. Ela afirma, com firmeza e sem aspereza, uma verdade simples: não há decisão judicial cumprida sem um Oficial de Justiça que a leve até o cidadão. Valorizar essa carreira não é privilégio funcional — é proteger a jurisdição, a segurança jurídica e a presença concreta do Estado junto à população.
Por mais uma semana, o Congresso Nacional segue olhando para esse rosto. E o SINDOJAF convida toda a sociedade a olhar também. Porque reconhecer quem cumpre a Justiça é o primeiro passo para que a Justiça continue, de fato, sendo cumprida — e para que ninguém que a sustenta precise seguir caminhando sozinho.
Brasília (DF), 25 de maio de 2026
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