Setembro Amarelo: escutar quem cumpre sozinho
A campanha deste ano propõe a escuta como forma de cuidado. Para uma categoria que trabalha isolada por definição da função, essa não é uma sugestão genérica — é o ponto exato onde a política institucional precisa começar.
Setembro é o mês da campanha nacional de prevenção do suicídio. O Setembro Amarelo nasceu no Brasil em 2015, ampliando o alcance do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, celebrado em 10 de setembro, e é conduzido pelo Centro de Valorização da Vida (CVV). O tema de 2026 é “Escutar é estar presente”.
A proposta da campanha é direta: quem atravessa um momento de sofrimento emocional nem sempre procura uma resposta pronta. Muitas vezes, precisa antes encontrar alguém disposto a ouvir com atenção, sem pressa e sem julgamento. O CVV convida a transformar a escuta em prática cotidiana — entre familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho.
Para os Oficiais de Justiça, o convite chega a uma função construída em torno do oposto.
Uma função que se cumpre sozinha
O Oficial de Justiça vai ao endereço pessoalmente, identificado, quase sempre desacompanhado. Chega ao local sem saber o que vai encontrar. Se a situação for diferente da prevista, resolve na hora, sem consultar ninguém. E responde por tudo o que certifica.
Essa é a natureza do trabalho, e ela não é acidental — é o que garante a fé pública do ato. Mas ela produz um efeito colateral que raramente é nomeado: cada Oficial cumpre sozinho, e o cumprimento solitário vira, com o tempo, isolamento entre pares. A tentativa que não deu certo não aparece em relatório nenhum. A situação difícil contornada no portão não é contada a ninguém. O que se acumula, acumula-se em silêncio.
É exatamente aí que a escuta deixa de ser gesto simpático e passa a ser questão institucional.
O que os dados mostram
Estudo conduzido com Oficiais de Justiça Federais no Rio Grande do Sul (PEIXOTO & AMAZARRAY, 2022), com 59 respondentes na etapa quantitativa e 19 entrevistados na qualitativa, encontrou:
40,7% de prevalência de Transtornos Mentais Comuns;
74,5% relataram já ter se sentido ameaçados no exercício da função;
87,3% afirmaram não se sentir seguros durante as diligências;
98,1% identificaram aumento do volume de trabalho.
O recorte é específico e não deve ser lido como retrato de toda a categoria brasileira. Mas o achado mais relevante do estudo não está em nenhum desses percentuais isolados.
Entre os fatores analisados — assédio moral, condições de trabalho, organização do trabalho e relações socioprofissionais —, foi a dimensão relacional que apareceu em parâmetro crítico, com razão de prevalência de 3,93 para transtornos mentais comuns.
Ou seja: o que mais se associou ao adoecimento não foi o equipamento que falta, nem apenas o volume que cresce. Foi a qualidade do vínculo institucional. Foi a escuta que não existe.
O tema do Setembro Amarelo de 2026 encontra, aqui, uma tradução literal.
Sobrecarga não é falha individual
Há um segundo dado que precisa entrar nessa conversa, porque explica parte do que adoece.
O Relatório Nacional dos Oficiais de Justiça no Brasil (UNOJUS, 2026) registra 34.051 cargos no país, dos quais 7.822 estão vagos — um preenchimento nacional de 77,03%. Quase um em cada quatro cargos criados para dar cumprimento material às ordens judiciais não está ocupado.
No TJDFT, os Oficiais cumpriram 796.754 mandados em 2024, uma média de 147,20 mandados por Oficial ao mês.
Produtividade alta não demonstra suficiência de quadro. Demonstra que a conta está sendo paga por quem está em atividade.
Isso importa para o Setembro Amarelo por uma razão precisa: quando a cobrança por índice de cumprimento recai sobre um quadro desfalcado, a sobrecarga é lida como insuficiência pessoal. Não é. É insuficiência de contingente — e agora está dimensionada. Reconhecer isso não alivia o volume de trabalho, mas devolve ao lugar certo uma culpa que nunca foi individual.
O que uma política de cuidado precisa incluir
A conclusão institucional do estudo é clara: proteção não se resolve apenas com equipamento. Depende de ambiente institucional, de reconhecimento funcional e de política permanente de saúde mental.
Na prática, isso significa que uma resposta séria ao adoecimento da categoria passa por canais de escuta que existam antes da crise; por acolhimento após diligências de risco, e não apenas registro do ocorrido; por recomposição de quadro, porque volume de trabalho é determinante de saúde; e por espaços em que o Oficial possa relatar o que viveu sem que isso seja lido como fragilidade.
Nada disso substitui cuidado clínico quando ele é necessário. Mas é o que cria as condições para que ele seja procurado a tempo.
O que cada um pode fazer neste mês
A campanha deste ano aponta para algo ao alcance de qualquer pessoa. Perguntar a um colega como ele está e esperar a resposta inteira. Notar quando alguém que sempre respondia parou de responder. Oferecer presença sem tentar resolver.
Cada Oficial cumpre sozinho. Isso não precisa significar estar só.
Se você está passando por um momento difícil, o CVV oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e disponível 24 horas por dia, pelo telefone 188, por chat e por e-mail em www.cvv.org.br. O suicídio é um problema de saúde pública e pode ser prevenido.
Fontes: (Centro de Valorização da Vida — campanha Setembro Amarelo 2026; PEIXOTO & AMAZARRAY (2022), estudo com Oficiais de Justiça Federais no Rio Grande do Sul; Relatório Nacional dos Oficiais de Justiça no Brasil (UNOJUS, 2026).
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